Entrevista com Neno, presidente da ONG LGBT Aganim desde 1988.



Um pé aqui/Edição-7
Rio de janeiro, 03 de Novembro, de 2017.

No dia 25/10/ 2017, Um pé aqui realizou uma entrevista com Neno, presidente da ONG LGBT Aganim desde 1988! Nesta conversa descontraída, em praça pública, Neno relata suas vivências enquanto militante!

1) Num comparativo, qual é maior dificuldade da causa LGBT dos anos 80 para hoje em dia?

A dificuldade é que na década de 80 quando se começou, era briga e as pessoas não tinham muita noção do que seria um HIV, distribuía-se preservativos nas boates, mas o povo fazia de bola. Quando se chamava para reunião ninguém queria saber. Então hoje em dia tem muita gente da militância que fica jogando conversa fora, o pessoal fala que antiguidade é posto, e é posto sim. Pois, se hoje tem um gay de mãos dadas na praça é por que eu comecei isso em 88, se hoje tem projeto de lei se deve ao passado.

2) Você acredita que a repressão a afetividade homossexual pública ainda é muito forte ou diminuiu ao longo do tempo?

Diminuiu bastante, por que graças a Deus conquistamos várias leis que nos protegem. Tem lei no Rio já que se alguém for discriminado no ambiente de um restaurante e tal, leva uma multa. E quando isso antigamente ia acontecer? Nunca! Antigamente você não podia nem andar de mãos dadas que apanhava na rua. Hoje em dia as pessoas estão com liberdade de expressão grande, claro que existem ainda os casos de homofobia, LGBT fobia, mas avançamos muito. Só que ainda tem pessoas retrógadas, como nossos pais que foram criados em outra época, etc.

3) Você acha que os meios de comunicação, as novelas que abordam a causa LGBT elas têm uma influência nessa aceitação social dos homossexuais?

Eu acho que 90% tem sim, porque entramos dentro das casas, as pessoas já estão vendo com outros olhos. Nessa última novela mesmo que acabou (Força do querer) a pessoa via o sofrimento da Ivana e tinha um carinho pelo personagem, gostava. E daí quando vê na rua aceita melhor.

4) Como ficarão as paradas LGBT no RJ, principalmente a de Copacabana que não aconteceu?

Não aconteceu ainda por que está em negociação com a coordenadoria especial de diversidade sexual que está tentando ver isso. Por que nos outros municípios do RJ já teve e essa coordenadoria ajudou através do atual prefeito. Copacabana que tinha uma verba exorbitante o prefeito cortou e não quer dar. Entendeu? Mas, as outras estão acontecendo, já aconteceu na baixada quase toda já. No Rio aconteceu, eu mesmo fui na Vila da Penha semana passada, semana retrasada para o Caju, Vista Alegre já teve... Rocinha vai ter, ou seja, tá acontecendo e a prefeitura do Rio tá ajudando. Acho que o problema maior está sendo só com a de Copacabana e a de Madureira. E as pessoas ficam falando “não é por que a parada gay é um carnaval”, é um carnaval sim, é uma data festiva sim e ali a gente tá comemorando as nossas conquistas. Se todo mundo pode ter um dia para celebrar por que não podemos ter um dia para comemorar o que conquistamos até hoje?

5) Qual é a sua opinião sobre o deputado Jean Willies enquanto militante da causa?

Acho ele uma pessoa maravilhosa, as pessoas tentam e tentam foder ele, colocar palavras na boa dele. Dizer que ele quer fazer beijo de língua de criança, mas o conheço pessoalmente. E é tudo mentira! Ele fez uma emenda parlamentar pra mim de uma casa que cuida de pacientes de AIDS em Mesquita, está em tramite para ser aprovada ou não. Eu vejo a luta dele, a primeira vez que ele foi eleito, ele veio procurar a minha ONG aqui em Mesquita, participou conosco, nós o ajudamos no que podia e no que não podia... dia trinta agora (30/10) vai ter uma roda de conversa sobre a situação da população LGBT no cárcere, ele irá palestrar para mim. Alexandra Makendo é a assessora parlamentar dele, ela é uma negra transexual, ex-detenta, que vai falar sobre essa situação. Então pra mim, ele está dando todo apoio e sempre deu, e os outros safados eu nunca vi fazer nada pelo movimento, só mentir...

6) Sabemos que o Bolsonaro é pré-candidato à presidência da república existe algum temor do grupo LGBT de mudanças drásticas no cenário devido a sua eleição?

Vai piorar como já está ruim o RJ com o Crivella, eu falei que ele criou a coordenadoria até para mostrar que não tem preconceito, e o preconceito está aí, o preconceito com o carnaval, com as maiores paradas do RJ. E com o Bolsonaro então tende a virar bola de neve e piorar cada vez mais.

7) Neste sentido, com a diminuição das paradas isto não irá afetar os comércios do Rio que tanto lucram com os eventos?

O próprio comércio da rede hoteleira teria que marcar uma entrevista com o atual prefeito e mostrar como a parada LGBT de Copacabana rende para o Rio de janeiro. Por que rende muito dinheiro, não só para a rede hoteleira, mas os bares, camelos, sociedade civil. Todo mundo ganha com isso e não é pouco não, é muito! Mas, a retaliação está tendo e está bem claro e nítido que está havendo retaliação com os eventos pontuais LGBT. Estão cortando tudo aos poucos, a coordenadoria que ele criou pra mim é tipo um “fake” pra falar mal, etc.

8) Existe algum investimento forte em se expandir as paradas para outros locais do estado onde elas nunca aconteceram?
Olha, o Rio sem homofobia, que é um equipamento do estado está sucateado. Eu estava trabalhando lá, quis sair por falta de pagamento. Não funciona para nada! O centro de referência tá atendendo totalmente defasado. São quatro centros de referência, um a coordenadora pediu até demissão, tem outro em Caxias, Friburgo, Niterói e Centro. Eu trabalhava na central do Brasil e até o elevador do prédio estava parado. Era precisava ir até o sétimo andar andando e depois voltar. Psicólogo não tem. O próprio superintendente que me colocou lá não vai em nada, não vai a lugar nenhum. Tem audiências públicas muito importantes e ele não vai, manda a secretária que trabalhou lá desde a inauguração. Hoje eu vejo o como o Claudio Nascimento faz falta.

9) Em trinta e um anos a frente da Aganim quais foram as suas principais conquistas?

Dia mundial de luta contra a AIDS (projeto de lei), dia mundial de luta contra a homofobia. Agora junto com a coordenadoria de diversidade sexual. Muito acolhimento, levar pessoas infectadas com o vírus HIV, jovens universitários nos procuram para fazer estudos. Nós fizemos um filme aqui em Mesquita, “O jovem cidadão brasileiro e suas conquistas”, junto com a associação brasileira interdisciplinar de AIDS. Esse filme já ficou como legado e as nossas rodas de conversa que trazem um tom esclarecedor para essa juventude.

10) O que ainda é preciso brigar em prol da causa LGBT?

Eu acho que o principal, para mim, é informação, pois muitas novelas, filmes, eles pegam o LGBT e colocam como uma figura bizarra, boba, de brincadeira. Deve-se usar esse espaço todo para informação por que o jovem não tem informação. E informação também correta, porque agora a Fiocruz tá com um tratamento que é o Prepe e o Trovada, que as pessoas tomam como a pílula do dia seguinte. Você transou e arrebentou a camisinha, vai lá e toma o trovada! Então as pessoas acham que agora já tem remédio para HIV. E também depois que o Viagra apareceu o índice de pessoas idosas com infecção está enorme, por que o cara já não transava toma o azulzinho e fica excitado. Vai colocar camisinha? Não! E a mulher, o homem vai à rua, transa e volta em casa e não quer colocar camisinha... Nisso o número de mulheres infectadas aumentou. O gay quando começou que era chamado de o câncer gay, o gay começou a se prevenir então o índice de gays infectados já caiu. Só que reafirmo estas informações destes novos projetos de saúde, como esses estudos da Fiocruz, para uma pessoa desinformada que lê vai achar que é um antídoto. E nisso ignoram a camisinha, o preservativo feminino muitas mulheres não querem usar, os homens acham que é antiestético. Aí a pessoa não usa e se infecta!



Por: Thiago S Campelo e Vinicius Espírito Santo.
Edição: Thiago S Campelo.

Comentários

Postagens mais visitadas